A luz orgânica de Adolpho Veloso em “Sonhos de Trem” fascina
O fotógrafo paulistano utiliza luz natural e proporção 3:2 para criar uma obra de arte realista e rústica em longa que é forte candidato ao Oscar
Foto: Sonhos de Trem/Netflix/Divulgação
Estava pensando em como descrever essa combinação de elementos que tornam a fotografia de um filme, candidato ao Oscar, verdadeiramente impressionante. Um filme sobre um dedicado lenhador que mora na floresta, enfrentando diversos momentos de reflexão acerca de trabalho, família, perda, dor e solidão.
O diretor de fotografia do longa “Sonhos de Trem”, o brasileiro Adolpho Veloso, criou uma autêntica obra de arte.
Veloso, um brasileiro nascido em São Paulo, é um torcedor apaixonado do Corinthians. Ele deu início à sua carreira na publicidade e, posteriormente, formou-se em cinema. Atualmente, é reconhecido internacionalmente, conquistando o destaque que merece com seu trabalho como fotógrafo no filme Sonhos de Trem, onde vem recebendo prêmios e propostas no universo cinematográfico.
Meu principal objetivo aqui é explorar a fotografia do filme, que, sem dúvida, é o aspecto que mais me fascina.
Com maestria e sagacidade, Adolpho Veloso entendeu a narrativa e utilizou a fotografia de maneira extremamente autêntica. Com coragem e sensibilidade, ele explorou todo o potencial da luz natural nas cenas, proporcionando uma experiência visual única. Para mim, isso representa uma visão original e criativa, mesmo sabendo que a luz natural é um recurso grandioso, mas arriscado.
Trabalhar com luz controlada pode ser desafiador, trabalhoso e requer um profundo discernimento sobre cores, iluminação e diversos outros aspectos para criar a atmosfera que, ao mesmo tempo, me provoca dor de cabeça e um certo fascínio. Até porque, em certos casos, é fundamental imprimir a naturalidade na imagem, e isso acaba ficando em falta. Nesse contexto, posso até adaptar o ditado “o barato sai caro” para “o barato até que saiu barato” e não menosprezar o desenho intrínseco da natureza.
Brincadeiras à parte, “Sonhos de Trem” evoca uma atmosfera rústica, poética e sensível que a obra pode proporcionar, considerando o ambiente e a história que se desenrolam. Em um cenário repleto de árvores e ar livre, não poderia ser diferente.
Uma curiosidade sobre essa fotografia é que o diretor de fotografia utilizou a luz natural na maior parte das filmagens. A paleta de cores, com tons de azul, verde, cinza e, em outros momentos, elementos como fogo e lamparinas, cria uma mistura de frieza e da dor que permeia essa vastidão.
Entender isso não é para qualquer um. É visível que Adolpho pensou em todos os detalhes, incluindo até a proporção de tela 3:2, para transmitir essa atmosfera de fotografia antiga e conseguir mostrar as árvores da floresta em sua totalidade, que também têm um papel central na história. É a união de todos esses fatores que traz a forma mais realista possível.
O filme explora a luz do pôr do sol, a luz da fogueira, a luz das lamparinas e as velas, com o chamado flare (luz do sol forte que incide diretamente na lente, criando vários raios de luz) entre as árvores, além das lentes utilizadas para trazer profundidade de campo e uma textura que é ao mesmo tempo antiga e realista.
Não é à toa que a fotografia deste filme já foi premiada em vários prêmios importantes da indústria cinematográfica, como os Critics Choice Awards, Film Independent Spirit Awards e indicado ao BAFTA, ASC Awards, entre outros que estão por vir.
Além disso, a escolha por uma harmonia mais rústica e orgânica reflete não apenas a essência do filme, mas também o olhar artístico de Veloso, que busca ultrapassar os limites convencionais da cinematografia.
A entrega de Veloso à sua arte é inspiradora. Com Sonhos de Trem, ele não apenas conquistou a beleza natural em sua forma mais pura, mas também revelou a sabedoria da fotografia de ser uma linguagem poderosa e universal.
Assista no Netflix.
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