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Bangers Open Air consolida quarta edição no Memorial da América Latina

Com personalidade própria e diversidade cultural, evento se firma como o principal festival de metal no Brasil.

Foto: © Ale Frata / Live Images
Texto: Adriano Coelho

São Paulo – 25 e 26/04/2026 – Memorial da América Latina – Mais uma vez tivemos o grandioso festival Bangers Open Air, que chega à sua quarta edição. Ele, que começou como Summer Breeze e hoje ganhou personalidade própria, é para muitos o maior festival de heavy metal realizado no Brasil. Começando pelo fato de ficar perto do metrô, temos muitas atrações, alimentação variada, acessórios rock/metal/gótico para a venda, pessoas fantasiadas de ícones do terror como o palhaço Pennywise (personagem do filme It) e o personagem Michael Myers (de Halloween), venda de CDs, camisetas da Consulado do Rock e até doces temáticos de terror. A única reclamação são as filas na hora de entrar e os vizinhos que dizem que o barulho é ensurdecedor.

PRIMEIRO DIA

Primeiro dia do Bangers Open Air. Fotos: © Ale Frata / Live Images

Ao chegar no local, fui assistir à banda alemã Lucifer. Apesar do rótulo de doom metal, eu a classifico como um rock n’ roll com influências sombrias, mas, mesmo assim, o nome da banda foge um pouco do carisma da cantora Johanna Sadonis. Além de se apresentar muito bem, ela recebeu o carinho do público, principalmente das mulheres presentes. O som é agradável; o problema é que, em um momento, ela começou a falar demais. Destaque para a canção “Phoenix”. Com certeza foi uma ótima ideia a escalação do grupo, que aqueceu todos para os próximos petardos que viriam. Saí do pequeno palco Sun Stage e segui para o Waves Stage, que fica num teatro fechado, e assisti ao show do Sujera, banda paulistana que faz um estilo gangsta como os grupos de rap Cypress Hill e House of Pain, mas com mais peso e letras mais diretas. Senti uma influência de Crazy Town e Limp Bizkit. Os músicos se apresentaram de capuz e o baterista com máscara de palhaço. Eles têm o perfil “periferia Zona Leste” e um dos cantores, um rapaz obeso, era bem consciente nas frases, como: “cada um tem que segurar sua cruz”, “tem que correr atrás”, “acreditar em você”. Fizeram introduções de Metallica e chegaram a ameaçar um funk carioca; o público ficou parado, mas voltaram ao som, levaram bem, foram simpáticos e fiéis naquilo que queriam mostrar. O principal: não fizeram discurso político, apesar do estilo que mostraram. Enfim, foram guerreiros e saíram com moral.

Já nos principais palcos, no Ice Stage, assisti ao show dos alemães do Feuerschwanz. O show é totalmente teatral e engraçado, com músicos caricatos sem perder o peso; um folk rock que atraía os curiosos como eu. Roupas medievais eram o destaque da banda, além do som de flauta. O nome do grupo, em português, significa “Cauda de Fogo”. Apresentaram 14 músicas e estão na ativa desde 2004. Destaque para as músicas “Dragostea Din Tei” e “Gangnam Style”. Agora, para ver a veia humorística deles: essa primeira música que citei é aquela versão do Latino, “Festa no Apê” (não gente, essa música não é dele, é um cover de uma banda da Moldávia que os alemães também gravaram; eu também não sabia) e a segunda é um cover do cantor coreano PSY. Ou seja: não preciso falar mais nada. Dei risada! Agora, uma das atrações mais esperadas: o Jinjer, no palco Hot Stage. Os ucranianos misturam djent com metalcore e elementos de progressivo. A vocalista Tatiana Shmayluk estava ao mesmo tempo exótica e elegante. Possuem três álbuns e é impressionante como ela mistura vocal limpo com gutural. Os músicos se mostraram técnicos, principalmente o baixista Eugene Abdiukhanov. Abriram com “Just Another”; agitaram com “Vortex”, “Perennial” e fecharam com “Sit Stay Roll Over”, num total de 12 músicas. Apesar de ser diferenciado, achei um show bom, nada mais que isso.

Agora era um dos nomes mais respeitados do metalcore, o Killswitch Engage, que já havia se apresentado na edição de 2024 e no Monsters of Rock de 2013. A banda de Massachusetts, que chama a atenção pelo lado exótico do vocalista Jesse Leach e do guitarrista Adam Dutkiewicz, deixou o público empolgado com as músicas “The Fire”, “In Due Time”, “My Curse” e “My Last Serenade” — esta última foi cantada na grade, mostrando a energia da banda. Foi um show agitado como todas as vezes que eles se apresentaram, mas desta vez achei inferior às outras, por questão de opinião. Agora era o momento mais esperado: Black Label Society. Zakk Wylde é único. O palco tinha vários crânios em volta do microfone e, mais acima, um crucifixo com Cristo crucificado; ele nunca escondeu ser católico. Durante a apresentação, ele esnobou sua técnica com solos longos; no telão, fez lindas homenagens a Ozzy Osbourne e aos irmãos Dimebag e Vinnie Paul. O heavy metal com grooves e toques sulistas foi apresentado. Dono de álbuns clássicos como 1919 Eternal, The Blessed Hellride, Mafia e Stronger Than Death, ele tinha muitos fãs à sua espera, mas talvez a expectativa tenha sido muita e o show foi marcado pelo excesso de solos, muito longe de apresentações brilhantes que ele já deu em nossas terras anteriormente. Mas, claro, hinos como “Stillborn”, “Funeral Bell” (que abriu), “Destroy & Conquer”, “In This River” e “Fire It Up” (com bolas infláveis para o público), não deixando de fora “Suicide Messiah” e “The Blessed Hellride”, sem esquecer o cover de Ozzy, “No More Tears”, foram muito aplaudidos. Totalizaram 13 músicas e o guitarrista Dario Lorina merecidamente foi elogiado.

Outra banda que era uma das atrações principais foi a sueca In Flames. Os músicos de Gotemburgo fizeram, talvez, o melhor show do dia. Na primeira vez em que eles estiveram no Brasil, eu tive problemas com o vocalista Anders Fridén, mas isso não é assunto para contar agora. Eles tiveram uma hora e 15 minutos de apresentação. Destaque para “Clayman”, “Deliver Us”, “Trigger” e “Only for the Weak”, mas a responsável pelas rodas foi “Take This Life” — sinalizadores foram vistos no público. Não faltou peso e houve pouca crítica por parte do público. Eles, que abriram a apresentação com “Pinball Map”, tocaram ao todo 14 músicas. Méritos ao guitarrista Björn Gelotte. Eles possuem álbuns de destaque como Colony e Reroute to Remain. Estávamos tristes com o cancelamento do Fear Factory e, principalmente, do Twisted Sister; com isso, o Arch Enemy tinha uma difícil missão. O grupo, que já possuiu as belíssimas vocalistas Angela Gossow e a temperamental Alissa, deixou todos na expectativa: como a nova vocalista levaria a apresentação? O resultado foi ótimo; Lauren Hart se emocionava e mostrava vigor. O grupo sueco, dono de álbuns como Stigmata, Doomsday Machine e Rise of the Tyrant, entrou em cena e agitou com músicas antigas como “Bury Me an Angel” e novas como “To The Last Breath”. Eu destaco “War Eternal”, “Dead Eyes See No Future” e “Nemesis”. A moça fez a sua parte e eles fecharam o palco principal com um grande show; houve pessoas no público que reclamaram da falta de algumas canções, mas foram 15 no total, lembrando que houve falhas no som.

Dos shows que não assisti nesse dia, o que fiquei sabendo: o Korzus agitou como sempre perante seu fiel público; o Evergrey, ouvi dizer que foi chato; o Violator tocou com a bandeira da Palestina e fez discursos voltados à esquerda; a Mayara Puertas, do Torture Squad, botou para quebrar com grande performance; os gaúchos do Marenna apresentaram seu AOR muito preciso, com refrões repetitivos; o Crypta, da vocalista Fernanda Lira, foi intenso. Fiquei triste por não ter assistido ao Ozzy Tribute, que contou com músicos como Amilcar Christofaro e Yohan Kisser, além de João Luiz (ex-Golpe de Estado, ex-King Bird). Não ouvi muito sobre o Tankard, mas haviam muitos assistindo; o Onslaught foi superelogiado, o que me deixou na dúvida se talvez eu devesse ter escolhido o show deles. Muitos elogios também para o Overdose. Não tive informações sobre Engineered Society Project, Hangar e Seven Spires.

SEGUNDO DIA

Segundo dia do Bangers Open Air. Fotos: © Ale Frata / Live Images

Estamos no segundo dia. Cheguei bem na hora em que o Nevermore pisava no palco. É muito estranho olhar para eles e não avistar Warrel Dane, mas a vida continua. Berzan é o atual vocalista; ele é turco (para quem não sabe, o falecido vocalista do The Clash, Joe Strummer, também era turco). Eles, que possuem o excelente trabalho Dead Heart in a Dead World, agitaram muito o público que sofria com o forte calor com as músicas “Enemies of Reality”, “Beyond Within” e “Engines of Hate”. Aliás, o vocalista entrou com a camisa da seleção brasileira de futebol, mas acho que não aguentou o sol escaldante e a trocou. Foram apenas oito canções; talvez merecessem tocar mais tarde. Mesmo assim, o vocal mostrou disposição e estilo para ser o frontman do Nevermore. Destaque para Jack (guitarra) e Ozerkan (baixo). Os fãs se mostraram contentes, rodas foram abertas e, no final, eles fotografaram o público.

Agora era a vez do Amaranthe, banda muito comentada. Vamos conferir a performance dos suecos, que teriam que enfrentar o calor que só aumentava. O grupo conta com três vocais: Molin fazendo o vocal limpo, Sehlin no gutural e a charmosa Ryd, que faz o vocal melódico. Ela chegou a tirar um casaco por não aguentar o sol forte e também se emocionou com o show, que foi harmonioso. Destaque para a figura futurista no fundo do palco. Vale destacar as músicas “Viral”, “Strong” e “Amaranthine” — esta última a mais cantada pela plateia. Estão na ativa desde 2008, fazem um som diferenciado, são carismáticos e atraíram a atenção de quem não os conhecia; foi jogo ganho.

Na sequência, veio uma banda mais experiente, que divide opiniões e preferências: o Winger. Liderada por Kip Winger, possui fãs fiéis e alguns que não curtem o estilo, denominando o grupo como poser. Durante a apresentação, Kip citou o nome de Alice Cooper, com quem ele já trabalhou, e depois fez muitos elogios ao Brasil. Destaque para as faixas “Stick the Knife in and Twist”, “Easy Come Easy Go” e “Madalaine”, mas, claro, o alvoroço ocorreu com “Miles Away”, talvez a música mais cantada do festival pela plateia. Houve solo de bateria, mas destaco muito a técnica do guitarrista Reb Beach, que mostrou muito virtuosismo. Um bom show, mais recomendado para adeptos do estilo hard rock anos 80. O absurdo foi colocar o Crazy Lixx no mesmo horário do Winger, já que muitos fãs são os mesmos; segundo informações, o Crazy foi mais pesado e animado.

Agora, um momento inusitado: Smith/Kotzen. As duas feras da guitarra Adrian Smith e Richie Kotzen estão em turnê, e o grupo ainda conta com Bruno Valverde na bateria e Julia Lage no baixo. Como já imaginávamos, o show foi uma aula de guitarra. Eles apresentaram as músicas “Life Unchained”, “Blindsided”, “Darkside” e “White Noise”. A emoção tomou conta com o cover do Iron Maiden, “Wasted Years”. Muitos ficaram na esperança de ouvir alguma música do Mr. Big ou até mesmo do Poison, mas o show foi encerrado e muito elogiado. Notava-se muita influência de Free, Bad Company e UFO. Um blues rock de qualidade.

Então era a vez dos holandeses do Within Temptation, liderados pela linda Sharon den Adel, que estava elegantemente vestida, embora eu não seja um conhecedor de moda. O tênis dela não estava legal (acho que Christian Dior e Yves Saint Laurent não aprovariam). Costumo dizer que os três melhores palcos que vi na vida foram os dos Rolling Stones em 1995, do Nine Inch Nails em 2005 e do próprio Within Temptation no Wacken em 2005; foi algo de que não esqueço. Lembrando que a vocalista já passou dos 50 e conduz muito bem a mistura de heavy metal com música lírica. “The Howling”, “Ritual” e “Forsaken” foram algumas das canções apresentadas. Eles tocaram 15 músicas, fechando com “Mother Earth”, um som de protesto. Com a bandeira do Brasil mostrada e Jolie mandando bem na guitarra, este ficou entre os melhores shows.

Fui para o Sun Stage assistir ao Udo Dirkschneider, pois era a comemoração dos 40 anos de Balls to the Wall. Incrível como o “baixinho” não perde a pose de headbanger e sempre traz músicos competentes e animados, além de seu parceiro no Accept, o baixista Peter Baltes. Para botar fogo, ele abriu com “Fast as a Shark”, com a introdução clássica da musiquinha alemã, deixando os veteranos ensandecidos. “Balls to the Wall”, “London Leatherboys”, “Love Child” e “Princess of the Dawn” foram para matar do coração. A vibração do público foi absurda: aplausos e mais aplausos. Udo ainda canta com vontade; está bem gordinho, mas ainda é o coração do Accept.

Segui para o Waves Stage para assistir ao Ambush, um grupo sueco que é, com certeza, 100% NWOBHM, com muita influência de Accept e Judas Priest. Eles são tão figuras que cantaram até uma música do Raul Seixas, em português mesmo (não lembro qual era). O vocalista Oskar é um show à parte. Falando em Judas, eles executaram muito bem o cover de “Metal Gods”.

Dos grupos que não vi: o Primal Fear teve como destaque uma guitarrista que foi muito simpática nas entrevistas (segundo informações, ela é ítalo-cubana). Roy Khan atraiu muitos fãs e fez um show memorável. A banda brasileira Chaos Synopsis foi elogiada, assim como o Trovão. O Krisiun teve, como sempre, o seu fiel público. O Silver Dust tem um vocalista que já jogou hóquei no gelo profissionalmente. O Angra, como esperávamos, foi apoteótico: dividido em três partes com todos os músicos, e com Andre Matos aparecendo no telão. Foram 19 músicas que brindaram a grande banda brasileira. Não obtive informações sobre Project 46, Visions of Atlantis, Clash Bulldogs, Malvada, Noturnall e Paradise in Flames.

Enfim, parabéns à organização, ao projeto School of Rock e a todos os envolvidos.
As datas da quinta edição do festival já foram anunciadas, e o Bangers Open Air acontece nos dias 24 e 25 de abril de 2027, no Memorial da América Latina. Até o ano que vem!


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