C6 no Rock estreia no Ibirapuera celebrando a era de ouro do Rock Brasil
Elogiado pelo público e pela crítica, a primeira edição do festival reuniu clássicos dos anos 1980 na íntegra, homenagens emocionantes e grande elenco.
Foto: © Ale Frata / Live Images
São Paulo, 22 e 23 de agosto de 2026 — Em sua primeira edição, o C6 no Rock — o irmão mais novo do C6 Fest — nasceu muito bem, obrigado. Elogiado pelo público e pela crítica, o festival trouxe os “quarentões” de volta à cena no melhor estilo. Mas calma: não estamos falando dos músicos e nem do público, que em sua grande maioria já passou dos 50. Estamos falando dos álbuns clássicos do rock nacional lançados na década de 1980 que moldaram a música brasileira.
A proposta foi audaciosa e certeira: apresentar discos icônicos executados na íntegra pelas respectivas bandas e artistas. O público que lotou o Parque Ibirapuera pôde reviver obras-primas como:
- Cabeça Dinossauro (1986) – Titãs
- As Aventuras da Blitz (1982) – Blitz
- Selvagem? (1986) – Os Paralamas do Sucesso
- Dois (1986) – Legião Urbana
- Fullgás (1984) – Marina Lima
- Rádio Pirata ao Vivo (1986) – RPM
- O Concreto Já Rachou (1986) – Plebe Rude
- Vivendo e Não Aprendendo (1986) – Ira!
O primeiro dia do C6 no Rock no Parque Ibirapuera. Fotos: © Ale Frata / Live Images
Tributos a Rita Lee e Cazuza fecham as noites
Foram dois dias de puro rock brasileiro sob o sol de São Paulo. No sábado (22), o encerramento foi com um tributo emocionante à musa inspiradora de gerações, Rita Lee. O show, comandado por seu primogênito, o guitarrista Beto Lee, trouxe ao palco um time feminino de peso: Fernanda Abreu, Sandra Sá, Alice Caymmi, Catto, Letrux, Miranda Kassin e Marina Sena. A noite ainda contou com a presença ilustre de Lee Marcucci, lenda das quatro cordas que acompanhou Rita desde os tempos da banda Tutti-Frutti até o fim de sua carreira musical e o baterista Edu Salvitti, que também integrou a última banda da cantora, inclusive em seu show final no Vale do Anhangabaú, em 25/01/2013.
No domingo (23), a celebração foi dedicada a outra lenda inesquecível: Cazuza. O tributo reuniu artistas que fizeram parte da trajetória do “poeta exagerado”, como seu eterno parceiro de Barão Vermelho, Roberto Frejat, além de Léo Jaime, Lobão, Leoni, Maria Gadú e Arnaldo Antunes.
Encontro de gerações e resgate histórico
Fica difícil mensurar o tamanho e a importância do festival, assim como apontar qual apresentação foi a melhor — uma escolha que fica puramente no gosto pessoal. O que se viu no Ibirapuera foram duas tardes ensolaradas com apresentações de elevadíssimo nível técnico e artístico.
Apesar de o público ser majoritariamente composto por quem nasceu entre as décadas de 1970 e 1980, a diversão esteve a todo vapor. Também chamou a atenção a presença de muitos jovens, que carregavam seus LPs originais (ou suas capas) em busca de autógrafos dos ídolos que abriram as portas para tudo o que veio a seguir no rock nacional.
Quem viveu a época sabe o peso dessas bandas. O rock nunca foi o gênero dominante no país da Bossa Nova e do Samba, mas a partir do primeiro Rock in Rio (1985), o país passou a olhar para o estilo com outros olhos. Vale lembrar que, naquele festival histórico, atrações nacionais como Barão Vermelho e Paralamas do Sucesso estiveram longe de receber a mesma estrutura dedicada às bandas gringas — algo que, infelizmente, ainda reverbera em episódios recentes da nossa cena.
Transportar-se para meados dos anos 1980 ajuda a entender a dimensão desse movimento: o Brasil passava a ser visto pelo mundo como um grande mercado consumidor de música, enquanto internamente nossos artistas lançavam discos antológicos e exportavam seu som para o exterior.
O segundo dia do C6 no Rock no Parque Ibirapuera. Fotos: © Ale Frata / Live Images
Momentos marcantes no palco
Entre os destaques que ficarão na memória do público, a participação especial de Fernanda Abreu com a Blitz levantou a plateia, enquanto Paulo Ricardo arrancou suspiros saudosistas ao interpretar os sucessos do RPM.
O Ira! manteve a promessa de não tocar “Pobre Paulista”. Embora a faixa faça parte do álbum de 1986, a música segue fora do repertório da banda por conta das controvérsias em torno de versos que, segundo o guitarrista e compositor Edgard Scandurra, foram metáforas mal interpretadas na época.
Outro momento celebrado foi o retorno de Clemente Nascimento, vocalista e guitarrista da Plebe Rude, aos palcos após um período afastado por motivos de saúde. Já Marina Lima trouxe como convidados seu amigo de longa data Lobão, que participou do show inclusive assumindo as baquetas na bateria e mais uma lenda dos baixos, Liminha.
A apresentação dos Titãs começou com uma narração, onde foi lido o parecer da censura na época sobre a letra de Bichos Escrotos. A banda havia sido anunciada para o show com uma hora de duração, mas teve cerca de 50 minutos: a banda tocou o Cabeça Dinossauro na íntegra, despediu-se, voltou rapidamente para o bis com o clássico “Flores” e encerrou a participação, deixando no ar o gosto de que caberiam mais alguns sucessos no setlist.
A única ressalva do final de semana ficou por conta do horário e das condições climáticas. Provavelmente, quando projetou o Auditório Ibirapuera em 1951, Oscar Niemeyer talvez não imaginasse o impacto do sol forte da tarde, no formato plateia externa, sobre os músicos nas primeiras apresentações. ele, como grande arquiteto-artista, deve ter se imaginado em cima do palco assistindo o pôr-do-sol dos mais lindos, que realmente acontece ali.
Mesmo com pequenos detalhes, a edição de estreia do C6 no Rock provou que o catálogo do rock nacional oitentista permanece vivo, atual e capaz de arrastar multidões. Vamos aguardar as surpresas para a próxima edição, já que esse festival chegou pra ficar.
Viva o Rock Nacional!
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